Testemunho > Ícones sobre vidro : os pintores camponeses da Romênia inspiram uma pintora francesa

Em 1699, no vilarejo de Nicula (Romênia), a 45km a nordeste de Cluj, um ícone da Virgem, situado numa pequena igreja de madeira de um convento, se pôs a chorar. Este ícone milagroso atraiu muitas peregrinações. Resultado: Nicula se tornou um vilarejo de pintores.

vierge_au_lysFamílias inteiras se puseram a pintar, no outono, a partir do fim dos trabalhos dos campos, para reproduzir esta imagem da “Virgem e o Menino” sobre vidro. Ateliês foram criados com uma verdadeira distribuição do trabalho: uma pessoa desenhava os contornos, uma outra punha as cores. O mais velho verificava o trabalho, acrescentavam uma moldura e depois a parte de trás, às vezes pintando com cores, querubins, estrelas, flores, figuras geométricas. Uma casa de cinco pintores produzia até 20 ícones por dia. Nicula vivia em função do milagre. Mas quando o fundador do ateliê desaparecia, o espírito do comércio assumia o seu lugar e os personagens se tornavam feios, deformados... Como os vidraceiros ambulantes, os vendedores se deslocavam carregando cofres abertos, um ícone ao lado do outro...

Cada ícone tem o frescor de um encontro

O ícone mais antigo feito sobre vidro é mencionado em 1703, em Sacadate, na região de Sibiu. Representa São Jorge. Cada casa tinha sua galeria de ícones bem apertados uns contra os outros, para atrair a proteção dos santos... Com Erik, Alain, Marie-Paule e alguns outros, durante uma viagem do IVI na Romênia, um dia nós visitamos um museu de ícones sobre vidro em Sibiel, onde alguns nos foram indicados como sendo milagrosos.

O que mais me tocou, nos ícones de vidro da Romênia, é a liberdade de expressão, de execução, as cores alegres, a representação das plantas, a sinceridade, a integração dos detalhes do cotidiano. De fato, eles têm o frescor de um testemunho, de um encontro; cada um corresponde à uma profissão de fé : um inventário e um convite à transformação, por meio deste invisível em cuja presença trabalhamos. Sua ingenuidade, sua simplicidade, às vezes sua inabilidade, lembram a força primitiva das placas colocadas nas igrejas em agradecimento às graças obtidas.

Desde meu retorno, eu tentei: ao invés do nanquim, optei pelas canetas hidrográficas modernas e pela fuligem da minha chaminé diluída com cola. A seguir, com pigmentos vegetais e pigmentos vermelhos Sénelier, fiz ícones a partir de plantas sobre madeira – para restituir à natureza sua dimensão sacra. Eu os dilui com gema de ovo. Renunciei à camada de pintura a óleo do fundo, no fim, pois é demorado demais para secar. Às vezes eu aplico uma folha de prata, de cobre ou de ouro no fundo.

Trabalhar livremente

Inicialmente eu fazia um decalque dos modelos que eu queria pintar sobre vidro, para que o modelo permanecesse no sentido tradicional. Depois eu fiz como os pintores romenos: trabalhei livremente e representei o que era importante para mim: a chegada das Santas em Saintes Maries de la Mer, o encontro de Ana e Joaquim na Porta Dourada, momentos do Apocalipse, muito presépios, Ceias e Virgens para me aproximar da sua perfeição, da sua ternura, da sua leveza.

saintes-mariesO milagre, para mim, no meu ateliê de Saint-Hippolyte-du-Fort (França), é transmitir esta relação da maneira mais maravilhosa possível a todos os visitantes, e ver sua alegria de poderem voltar para suas casas, após duas horas de trabalho intenso, com o ícone do santo que lhes é significativo.

Também é unir-me à história da arte desde a Antiguidade. Já praticada na Assíria e na Fenícia, em Bizâncio no século IV, a pintura sobre vidro foi introduzida em Veneza na Idade Média e desenvolvida em Murano. É encontrada no Iraque, na Pérsia, na China em 1830, no Japão, no Senegal. Por volta de 1912, Kandinsky pinta com água e nanquim 31 imagens fixas “sous-verre”, ou pintura sobre vidro, dentro as quais “O Julgamento Final”. Esta pintura ainda é praticada na Polônia, na Áustria, na Alemanha, na Ucrânia...

Antiga, sábia, popular, religiosa, a pintura sobre vidro faz sonhar...

Corine