Testemunho > Encontrar o seu lugar
Fara nasceu na França, numa família de 7 filhos de origem argelina e de credo muçulmano. “A religião, contudo, ninguém a recomendou para mim, ela me confia. Entre nós havia um aspecto muito tradicional em nossa maneira de viver. Isto é tudo.” Depois de um percurso difícil, numa sociedade em que ela não encontrava de modo algum o seu lugar, hoje Fará se define como um camaleão feliz por poder se fundir por toda parte com a mesma alegria.
Uma infância dolorosa
Cresci num ambiente de constante violência. Quando criança eu apanhava. Muito da minha mãe. Muitíssimo dos meus irmãos mais velhos que bebiam. A ausência do meu pai me fez sofrer muito, ele que sempre saía para comprar os legumes que minha mãe venderia no pequeno mercado de um bairro muito rico de Paris. Sim, paradoxalmente era lá que vivíamos. De um modo muito modesto, num setor muito burguês. Em casa, uma panela de comida devia durar 3 dias. E muito cedo, na minha pequena infância, comecei a ter um terrível complexo das minhas origens. Quando minha mãe ia comprar leite no bairro, com suas tatuagens, no fim da guerra da Argélia (na época eu tinha 5 anos), mandavam-na embora dizendo-lhe “Esta guerra, vocês a quiseram, então que a continuem!” Eu sentia vergonha. Vergonha das minhas origens, desta mãe analfabeta que me batia porque eu fazia xixi na cama, vergonha do meu nome que identificava quem eu era, e desses irmãos alcoólatras contra quem eu tinha de permanentemente me defender do incesto fingindo dormir profundamente, tentando morrer para que eles não me tocassem. Mas eu ouvia a respiração da minha irmã mais velha ao lado, e eu sabia que ela, ela não escapava. E é impossível falar disso, pois em nossa cultura, essas coisas acontecem sempre “por culpa das mulheres”. Tenho a lembrança de minha mãe esconder comida e doces para os rapazes porque eles eram mais importantes. Nós, nós não passávamos de uma mercadoria para quando houvesse interesse.
Ambígua por toda parte
Desde bem pequena, então, o mutismo, coisas não ditas, a solidão fizeram parte de mim. Mas, curiosamente, esta solidão era tingida por momentos muito doces. Pois aos 4 anos aconteceu um fato muito estranho dentro de mim. Eu me senti como que acompanhada por dois personagens cheios de benevolência. A cada vez que alguma coisa me machucava, era a esses dois personagens que eu me dirigia, sem saber ao certo de onde vinham. Mas, para mim eles eram divinos... e eles tinham nomes: Maria e Jesus. Entretanto, eu nunca tinha entrado numa igreja... Sem bem compreender por que, uma vez que não tinha tampouco entrado numa mesquita, eu já me sentia ambígua, com duas culturas. Ou simplesmente ambígua. E na escola eu ficava para trás. Era incapaz de ler nem de escrever.
Então, sem explicação, me levaram um dia, com minha pequena mala para um internato. Querem saber o que era? Um internato católico! Eu tinha 8 anos.. Era a única muçulmana, ninguém me dirigia a palavra, eu não recebia nenhuma carta já que minha mãe não sabia escrever. E como eu continuava a fazer xixi na cama, me acordavam no meio da noite para me fazerem tomar duchas frias, e de repente eu me via nua diante de todos. Nunca me senti tão humilhada, abandonada e me tornei completamente anoréxica. Curiosamente, ainda ali, meus únicos momentos de alegria aconteciam quando eu assistia a missa. A partir da escadaria externa, uma vez que não sendo católica, eu não tinha o direito de entrar.
Esta ternura até então desconhecida
Um princípio de luz surgiu muitos anos depois, quando eu trabalhava com minha mãe no mercado, o que eu fazia desde a morte de meu pai. Tive de abandonar a escola aos 14 anos. Foi quando uma pessoa de Convite à Vida, que vinha regularmente comprar nossas saladas e limões, começou a conversar comigo. Um laço de simpatia se estabeleceu entre nós. Um dia eu lhe perguntei: “Mas o que você faz? Você está sempre viajando... Você deve ter uma profissão extremamente interessante!” Ela me disse: “Eu ajudo os outros...” Isso repercutiu em mim. Exclamei: “Ah é?! Mas é o que eu sempre tive vontade de fazer!”
Durante 6 meses eu a vi muitas vezes na sua casa, assim como algumas outras pessoas da associação que me escutaram e, principalmente, me ajudaram a compreender o que eu vivia através das minhas dificuldades. Porque eu era incapaz de chegar à raiz das coisas, por me ver bloqueada por tudo o que não conseguira expressar. Pouco a pouco eu recuperava a palavra. Era maravilhoso, pois eu descobria ao mesmo tempo uma certa esperança e muita alegria dentro de mim. Este elo de ternura que se criava entre nós, em casa eu jamais o conhecera.
A busca da identidade
Mais movimentada foi minha entrada num grupo de orações. Meus velhos demônios reapareciam. Eu dizia o “Pai Nosso” quando nunca tinha rezado no meu credo! Será que não estava traindo minhas origens? Apesar de me terem deixado à vontade, dizendo-me para eu me sentir livre, dando-me amor e repetindo-me: “Orgulhe-se do que você é, do seu povo, da sua identidade”, tudo estava muito ambíguo na minha cabeça. Ainda mais que na mesma época eu acabava de ser contratada numa loja luxuosa de marca prestigiada, onde imediatamente me pediram para mudar meu nome e para alisar meus cabelos. Então, por um lado me diziam que era extraordinário ser diferente, é o que permitia que as trocas entre as pessoas fossem ricas e, por outro lado, era preciso que eu entrasse num molde.
O reconhecimento
O caminho foi longo, os combates difíceis. Onde quer que eu estivesse, eu ficava o tempo todo procurando qual o meu lugar. Me rebelei muito, me distanciei, duvidei muito que pudessem me amar, eu não podia acreditar nisso. Hoje eu sei que todo este amor e esta paciência que eu recebi me salvaram de uma certa loucura. Aprendi a ver o lado bom das coisas. Ao invés de me dizer: “Oh, pobrezinha, é terrível o que te acontece!” quando eu ficava deprimida ou caía numa crise de anorexia, eu tomava consciência de toda esta força interior que eu tinha dentro de mim para superar tudo e resolver a situação. Eu me estruturei bem. Foi um reconhecimento extraordinário. Este reconhecimento que, enquanto menina, eu teria gostado tanto que meus pais sentissem a meu respeito. O que atualmente eu mais desejo é redistribuir o que recebi para todos os lugares onde eu for... E uma vez que Deus é universal, eu também rezo hoje em árabe e em kabyle. Não tenho mais barreiras. Sou muçulmana, mas também sou um verdadeiro camaleão. Posso me fundir a qualquer credo, seja cristão, muçulmano ou judeu, com a mesma intensidade. E esta abertura, eu a compartilho com meu filho que tem 15 anos.
Então, se não sou um modelo de paciência e de tolerância, o que hoje é certeza é que por toda parte onde me encontro, seja no meu trabalho, com meus amigos, ou no meu país aonde voltei recentemente, eu vejo que o olhar dos outros a meu respeito mudou. E eu sei que é porque eu, eu mudei o olhar que tenho a respeito de mim mesma! A dignidade substituiu a vergonha.
Fara







