Testemunho > A Liberdade Interior
Uma experiência, não um conceito
Na minha história pessoal, esta busca da liberdade interior se afirmou quando eu tinha 20 anos. Eu compreendia implicitamente que não era livre e que as chaves da minha felicidade, da minha realização e do sentido da minha vida estavam ligados a esta liberdade interior. Eu estava me sentindo muito mal, com dificuldade para encontrar o meu lugar, para me relacionar com os outros. O que reforçava meu sentimento de solidão. Sentia que estava afastado do mundo. Constantemente eu me relacionava de um modo defensivo; revoltado, eu não estava feliz. Eu me sentia na obrigação de me certificar de tudo, de controlar tudo, com o sentimento de estar só diante do sofrimento dos outros.
Através dos outros
De fato, bem cedo compreendi que não podia resolver sozinho esta situação. Convite à Vida me ensinou o seguinte: a compreender que o que não podemos fazer por nós mesmos, podemos fazê-lo pelos outros. Ao fazer a harmonização e a oração, uma porta se abriu, independente da minha vontade. Paralelamente, pude me dedicar a algo que me superava, pela responsabilidade que me foi confiada por Convite à Vida no Brasil: fui estimulado a avançar, a esquecer momentaneamente o pequeno eu (moi), para entrar no grande eu (soi).
Quando sofremos, aprendemos a nos fazer cuidar pelos outros de um jeito muito simples: basta um pouco de doçura, de generosidade nos pequenos gestos do cotidiano de uns em relação aos outros para que, pouco a pouco, pessoas fechadas como ostras, tal como eu, consigam se abrir!
Libertação do mental
Ainda há momentos em que permaneço na minha prisão interior, com minhas angústias e minhas preocupações. O mental consegue ter uma ação particular sobre mim. Mas se ele é um instrumento magnífico de discernimento, ele se torna uma fonte de complicações, de desvios e de meandros quando não está conectado à alma. Conforme meus pensamentos, eu posso avaliar como está minha saúde espiritual! Quando percebo que meus pensamentos são repetitivos e que volto sempre aos mesmos assuntos, me ponho em alerta! Eu já sei que preciso purificar meus pensamentos, me regenerar. É como se, ficando prisioneira do meu mental, a seiva se enrigecesse. E meu corpo não sendo mais irrigado, instala-se um mal-estar. A liberdade interior é a libertação do mental.
Minhas resistências se desfazem
Uma libertação progressiva se manifestou por um maior estado de confiança, confiança em mim e confiança na vida. Modificar alguns milímetros dentro de nós representa muitíssimo. É passar do mundo submarino a um mundo aéreo! De um modo muito concreto, é reaprender a respirar, a me dilatar, a acolher e a estar disponível.
Antes de tudo, as provações que eu vivi me abalaram, racharam o bloco do mental e me recolocaram em conexão com a minha verdade interior. Primeiro eu vivi um divórcio: a ilusão de um casamento, de um projeto que se desfaz, e minha nova mulher tem verdadeiros problemas de saúde! A intensidade da provação não me permite mais utilizar meus antigos referenciais: quando vivemos com uma pessoa frágil, o mental não pode fazer mais nada, o relacionamento com o outro é vivido através de uma presença e de uma atenção particular. A seu lado, minhas resistências continuaram a se desfazer.
Minha vida profissional também se transformou; minha profissão de corretor de imóveis me faz encontrar muitas pessoas. Tenho esta capacidade de observar os outros, de compreender a trama de uma situação: um discernimento que antigamente se encaminhava com freqüência para o julgamento. Tudo isso também está evoluindo, eu aprendi a me compromissar positivamente em relação ao outro. Quando você se põe em ressonância com a sua própria verdade interior, a relação é mais verdadeira, mais profunda; não há trapaça, não há mais apreensão. O outro se sente livre na sua decisão; você vai direto ao objetivo.
De repente o horizonte se abre...
Pode acontecer de eu me queixar durante vários dias das dificuldades da vida! De repente o horizonte se abre, os entraves do cotidiano, os limites da existência se evaporam... Tudo se torna profundo, rico e gigantesco... a consciência de uma outra vida e o desejo de viver conforme esta nova consciência.
Esta libertação interior, eu a vivo através do meu corpo. É uma mudança fisiológica real. Não é fugaz, nem ilusória. É como se meu corpo se tornasse mais receptivo e encontrasse a sua vocação original: ele é um órgão de percepção, de transmissão e de partilha!
Quando atinjo esta libertação, de conseguir clareza, completo domínio de mim mesmo, e me relacionar com os outros, uma paz se instala, minha vida muda, pois minhas prioridades mudam. Com esta liberdade, eu participo da criação da minha própria vida.
Antoine
Eu aprendi também a não mais me sentir culpada : quanto mais nos culpamos, mais comemos.
Eu não suportava mais esta escravidão, esses frenesis que me faziam descer à rua para comprar tudo e mais um pouco para comer... Num dado momento eu decidi aceitar meu corpo. A oração me salvou, ao representá-lo para mim como o templo de Deus, um receptáculo sagrado como uma igreja, que é preciso manter para que a alma seja bela e não fazer dela uma lixeira. Eu ainda comia muito, mas não tinha mais crises compulsivas. Eu aprendi também a não mais me sentir culpada : quanto mais nos culpamos, mais comemos.
Uma outra “técnica” me ajudou bastante : pensar em toda a cadeia de pessoas que produz o alimento que chega a nosso prato. Comendo pão, eu pensava no camponês que tinha cultivado seu trigo, naquele que o tinha cortado, no moleiro que tinha moído a farinha, no padeiro... Esta cadeia de amor me vinha ao espírito por si só e me obrigava a honrar tudo o que eu engolia.
Meu regime: partilhar a comida com amor
Antes de atingir esta forma de sabedoria, eu tentei todo tipo de regime. O mais equilibrado era o Weight Watchers que eu segui durante um ano sem falhar uma única vez. Durante este ano eu era acompanhada, depois “largada na selva”, para ficar independente. No último dia, quando nos despedimos, persuadidos de que agora éramos grandes, eu comi de uma vez três queijos camembert, dois filões de pão, etc. Eu me via estragar um ano de esforços, sem poder fazer nada. Eu compreendi, a seguir, que não era um ano de esforços, mas de vontade. Não é a vontade que constrói, mas poder abandonar-se a Deus. A verdade não está na opressão, mas na busca da liberdade e do equilíbrio. Durante anos eu me proibi partilhar refeições para não comer demais! O regime exclui outros e impede que se aproveite esta alquimia da comida partilhada com amor. Eu me disse: nunca mais. O cálculo das calorias é uma enorme armadilha: eu sabia os valores calóricos de todos os alimentos que eu ingurgitava. Eu passei a barreira dos dois mil, dos três mil... O alimento não é quantitativo, mas qualitativo. É preciso honrar o que comemos, e não calculá-lo.
Repleta da plenitude da vida
Eu encontrei meu peso de equilíbrio depois dos meus partos, que me estabilizaram definitivamente. Por intermédio da gravidez eu me senti “plena”, da plenitude da vida. A comida certamente sempre esteve ligada a meu desejo intenso de maternidade: com vinte anos eu acreditava que ficara estéril devido a uma tuberculose genital. Mas hoje Deus me deu três meninas e, através delas, uma verdadeira harmonia se instalou em mim. Agora eu me sinto completamente livre em relação à comida, apesar de continuar bem gulosa. Jamais voltarei a ser bulímica, enquanto durar este apreço pela felicidade... Eu chego a comer um tablete de chocolate inteiro, mas sem me culpar! Meu marido é suiço: seu irmão pode chegar em casa nos dando de presente um quilo de chocolate! Antes, quando me davam comida de presente, eu jogava tudo no lixo porque ficava aterrorizada. De fato, é bom gostar de todos os presentes que recebemos... Além disso, em certos momentos de nossa vida precisamos de açucar, em outros de sal. É preciso se deixar levar por certas necessidades internas, ditadas pelo nosso corpo.
Eu não chego ainda a comer lentamente, saboreando : com os filhos, não é fácil ! Mas eu sei que a solução não é sentar à mesa, dizendo: “Agora eu vou comer lentamente”. Eu ponho esse problema num canto da minha cabeça e o confio aos anjos e ao Senhor. Se a balança acusa um ou dois quilos suplementares, porque eu fiz muitos excessos, eu o confio também. Eu creio que com a “entrega”, a ternura por si mesmo é a melhor das balanças







