Pequenas férias que desbloqueiam a comunicação

Em Marbelha (costa da Andaluzia, Espanha)

Sejamos sinceros: sempre houve, num canto da minha cabeça, um tipo de separação quase visceral entre minha família espiritual, de Convite a Vida, e minha família eleita que, quanto ao essencial, não pertence ao IVI. A alegria de compartilhar na oração, em peregrinação, por exemplo, momentos intensos com pessoas que amamos, mas não escolhidas inicialmente, me parecia incompatível com uma velha cumplicidade cultural de próximos escolhidos por afinidades e com os quais saímos de férias por vontade próprias…

Era preciso o sol de Marbelha para mudar meu olhar sobre esses amigos do IVI que ao mesmo tempo rezam, amam, vivem, escutam, trabalham, se apaixonam por tantas coisas, e não perdem a ocasião de rir livremente? Repentina e instrutiva, esta pequena estadia!

Uma semana antes, ainda, eu estava em busca de um certo sabor de evasão, idealizada pelos anos-luz que me separavam disso, e estava consciente, contudo, que este gosto de “retorno” hoje não seria mais suficiente para mim. 

Por um lado, eu sentia falta de espaço, do mar, do sol, de ficar absolutamente sem fazer nada, sem despertador, sem visitas a basílicas ou museus, sentindo falta de um lugar de sonho tranqüilo, quase relativamente deserto... Por outro lado, eu aspirava confusamente, no meu íntimo, contudo, encontrar um ambiente amistoso, de preferência em harmonia com meu caminho espiritual... O todo por um punhado de euros, já que eu não dispunha de mais do que isso.

“Peça e você obterá”

“Por que não Marbelha? me interroga uma amiga, num resumo surpreendente. Não fica longe. Ali tem mar. Em abril faz bom tempo. E lá nós temos (subentende-se nossa associação Convite à Vida) um pequeno grupo de mulheres muito simpáticas que você pode eventualmente contatar se desejar”.

Marbella Vue de ma chambre

Maciços de todos os gêneros em El Bujoo

No fim da manhã de Domingo, deixamos Marbelha, acompanhando o mar em direção a Torremolinos, para bifurcar rapidamente em direção às terras e começar a subida para a montanha. Nesta primavera espanhola, camafeus de um verde enlouquecedor ondulam sobre todo o campo. Daqui e dali, em atitude estudada no flanco da colina, com seus telhados planos à moda andaluz, um lugarejo branco e rosa adormece docemente ao sol. Diante de tanta beleza, a ação da graça vem aos nossos lábios. Depois, subitamente começa a subir, a subir... O mar desapareceu. Oliveiras a perder de vista ocupam o espaço. Mágica! Ainda um km ou dois de um caminho abrupto e arenoso, em que o velho jipe de Teresa só avança mais um pouco. E chegamos.

Teresa abre orgulhosamente a grade. “Eis El Buho” (o domínio do mocho) como a batizou minha neta Carla! Porque a primeira vez que ela veio aqui, um mocho atravessou o jardim, e como é um animal que dá sorte...!”

Um sutil universo em frente ao Marrocos

Começa a admiração. Sobre um imenso terreno inclinado coberto de oliveiras, entre as quais se misturam timidamente figueiras e amendoeiras, um cambiante dédalo de arbustos, de flores selvagens, de culturas da horta, de maciços de todos os gêneros coabitam em perfeita vizinhança híbrida e refinada! Nenhuma construção no horizonte. Apenas um minúsculo refúgio disfarçado na natureza, que abriga uma pia em estilo mourisco, a reserva de pratos e de condimentos feitos em casa, dentre os quais o puro azeite de oliva, e uma pequena cama de campanha, embaixo da qual Teresa põe ponchos, xales, albornoz, pois lá em cima acontece do vento ser forte!

plat à tajine

Fora, ao acaso, pequenas superfícies planas cuidadosamente preenchidas, de onde se vêem todo tipo de ervas aromáticas, algumas mesas e bancos de madeira protegidos por longas esteiras. Adiante uma rede para descanso, um prato de tajine sobre cinzas ainda mornas...

Yurt encravado na paisagemm

yourte ancrée dans le paysage

Yurt encravado na paisagem

E então, enquanto Viviana e eu continuávamos a explorar os lugares, já tendo visto na parte de cima brotos de alcachofra, de jasmim, de margaridas cor-de-rosa, de lavanda, e de ervilha-de-cheiro, subitamente talhada nas cristas das montanhas e no verde terno das oliveiras avistamos um yurt de cor crua (tenda nômade), tão naturalmente encravado na paisagem que imaginamos, cavando o solo, poder ali detectar fontes vivas. Teresa empurra a pequena porta envidraçada, deixando à mostra um universo sutil, colorido por esteiras, sofás, tapeçarias e um outro cofre marroquino.

“Não nos esqueçamos que estamos em frente ao Marrocos, ela enfatiza sorrindo. Aqui é, ao mesmo tempo, sala de chá, sala de música quando alguém traz seu violão, o espaço para harmonizações e orações, sala onde conversamos... é conforme...”

O balé das águias

Há cinco anos, quando me propuseram este antigo olival, prossegue Teresa, eu me perguntei o que eu poderia fazer com ele. Sem água, sem eletricidade. Antigamente as árvores tinham sido plantadas sobre terraços. Com o passar do tempo, o terreno desmoronou... Mas eu fui atraída a este lugar. Durante um ano eu me movimentei sobre ele rezando. E certa manhã, em que eu estava sentada a contemplar o céu ainda leitoso pela sua bruma, de repente eu vejo um casal de águias que pousa num pequeno monte diante de mim, e começa, com uma graça louca a cruzar o céu, a partir, a voltar, a se tocar, a formar círculos, num verdadeiro balé, para finalmente partir... Eu ainda fico muito emocionada ao falar disso. Com lágrimas nos olhos eu lhes disse: “Muito obrigada pela sua visita!” O que elas me fizeram compreender, é que se não incomodamos demais a natureza, a natureza continua a viver no seu devido equilíbrio, e isto é sublime.

A partir desse dia, para Teresa, que é tradutora, e que só tem as manhãs para arregaçar as mangas, inventar coisas e retirar as ervas daninhas, El Bujo se tornou o mais belo projeto que já sonhou. A água? Vem do poço que ela fez cavar. A luz? Por enquanto grandes lanternas fazem o serviço. Mas a próxima etapa é a instalação de placas solares para haver eletricidade.

A casa do Bom Deus para os ateliês de jardinagem

“Meu desejo atualmente é organizar aqui ateliês para transmitir a idéia que é possível, com um pedaço de terra apenas, fazer uma família inteira viver. Basta compreender como cuidar e cultivar a terra.

Na semana passada minha família veio com amigos e uma pequena tribo de 5 crianças de 8 a 12 anos. Eu lhes organizei um “concurso de jardinagem”. Ela nos mostra o pequeno pedaço da horta que ela dividiu em cinco partes. Cada um plantou tomates, abóboras, pimentões, depois eu pus as placas com seus nomes para que pudessem ver o resultado de suas plantações na sua próxima vinda. Eles ficaram loucos de alegria! É maravilhoso fazer outros gostarem de tocar e enriquecer a terra.

El Buho, nós o compreendemos, se tornou muito naturalmente a casa do Bom Deus. Nem todos os meus amigos fazem parte de Convite a Vida, confia Teresa. Mas todos rezam ao menos um benedícite antes da refeição. É magnífico ver como todos, a partir da energia extraordinária desse lugar, sentem esta necessidade.

Orações ao vento e morangos ao creme

Mas já são 15h30, a hora espanhola para almoços, e o ar puro dá fome. Rapidamente Teresa põe sobre a mesa seus cestos apetitosos e, muito comovida, nos agradece pelo presente que lhe fazemos por estar ali, com ela, no dia do seu aniversário. Nós não o sabíamos e o presente, foi ela quem o deu para nós!

Pratos marroquinos

Pratos marroquinos para partilhar a refeição

Então, com o vento que aumenta bruscamente, acompanhado por nuvens esquisitas, subitamente agasalhados em nossos xales e ponchos, nós nos unimos ombro a ombro, dando-nos as mãos, para fazer uma dessas inesquecíveis orações de ternura, antes de saborear sem moderação a quantidade completa de pratos de legumes do jardim e de implantar (certamente) a vela simbólica sobre os morangos ao creme!

Monique (Marbella, abril de 2009)